Primeira mesa do evento Zika debate vetores da doença

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Primeira mesa do evento Zika debate vetores da doença

Diferentes mosquitos podem transmitir o vírus zika em diversas partes do mundo, e os estudos recentes ainda não são capazes de determinar claramente quais são esses insetos e seu potencial de transmissão. Mas, nas Américas, o Aedes aegypti ainda é o principal vetor desse patógeno. Portanto, estratégias para o seu controle são a forma mais eficaz de deter o surto de zika na região. Essas foram as principais mensagens da primeira mesa do evento Zika, realizada na tarde desta segunda-feira (7/11) na Academia Nacional de Medicina (ANM). O evento é promovido pela Fiocruz em parceria com a ANM e com a Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Na primeira mesa do evento, pesquisadores falaram sobre a diversidade de mosquitos vetores do vírus zika em todo o mundo (foto: Gutemberg Brito, IOC/Fiocruz)
O pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Rafael Freitas e a professora da Brock University (Canadá) Fiona Hunter mostraram a diversidade de mosquitos vetores do vírus zika. Nas Américas, o cientista aponta uma coincidência entre a distribuição geográfica dos casos de zika e de A.aegypti e A. albopictus, sendo o primeiro mais relevante para a transmissão de arboviroses devido aos seus hábitos alimentares. “O Aedes albopictus é um mosquito mais eclético, que pode se alimentar de vários hospedeiros diferentes como cachorros, gatos e pequenos mamíferos, enquanto que o Aedes aegypti é mais restrito, preferindo seres humanos”.
Contudo, em outras localidades, nem sempre estes vetores são os protagonistas na transmissão de zika. No Senegal, por exemplo, outras variedades de Aedes são mais importantes que o A. aegypti na transmissão local do vírus. “O Aedes aegypti não parece ter nenhum papel relevante na transmissão do vírus no Senegal, visto que nenhum mosquito foi capaz de secretar saliva infectada 14 dias após a infecção”, explica ele. Freitas também abordou os resultados das pesquisas realizadas pelo IOC/Fiocruz com os mosquitos Culex quinquefasciatus (popularmente conhecida como pernilongo ou muriçoca) no Rio de Janeiro, que não indicou competência vetorial para transmitir as linhagens locais do vírus zika.
Corroborando com os dados apresentados por Rafael, Fiona mostrou um levantamento de trabalhos sobre os vetores do zika entre 1952 e 2014 que encontraram 20 espécies de Aedes e 6 espécies não Aedes. E, mais uma vez, nem sempre, o Aedes aegypti é o principal transmissor do vírus. Segundo a professora, no surto do micro-organismo na Micronésia em 2007, essa espécie do mosquito respondeu por menos de 0.1% da população contaminada, ao passo que o Aedes hensilli e o Culex quinquefasciatusrepresentaram, respectivamente, 41,2% e 28,1%. “Embora sabidamente o Aedes aegypti seja o principal responsável pela transmissão do vírus nas Américas, quero manter minha mente aberta para a possibilidade de outros vetores no transmissão mundial”, disse. Fiona mostrou ainda que estudos filogenéticos colocam o zika exatamente na divisão que separa os arbovírus transmitidos por Aedes e por Culex, reforçando a tese de que a transmissão por este último deve ser investigada. A professora citou ainda a descoberta da pesquisadora Constância Ayres (Fiocruz Pernambuco) que comprovou a capacidade de zika pelo Culex quinquefasciatus em Recife.

Medidas de controle de sucesso

Embora sejam necessários estudos para verificar a competência vetorial de outros mosquitos na transmissão de zika, pesquisas comprovam que, nas Américas, epicentro do surto do patógeno no mundo, o Aedes aegypti é o principal vetor do vírus. Por isso, estratégias de controle dessa espécie têm sido alvo de pesquisas na Fiocruz. Os resultados de casos de sucesso foram apresentados pelos pesquisadores Luciano Moreira, do Centro de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas), e Sérgio Luz, do Centro de Pesquisas Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazonas).
Luciano mostrou à plateia o Programa Eliminar a Dengue: Desafio Brasil, que utiliza a Wolbachia, uma bactéria naturalmente encontrada no meio ambiente, capaz de impedir a transmissão de dengue, zika, chikungunya e febre amarela quando presente no mosquito. Segundo Luciano, além de inovadora, a técnica é também autossustentável: “uma vez infectada pela bactéria, a fêmea do Aedes aegypti transmite o micro-organismo para seus descendentes e, praticamente 100% de sua prole já nasce com a Wolbachia. E a partir do momento que os mosquitos com a bactéria se estabelecem em uma área, eles tendem a ficar ali, a população de mosquitos infectados não diminui”.
Já Sérgio compartilhou com a estratégia de disseminação de inseticida pelos próprios mosquitos, utilizada nos municípios de Manaus e Manacapuru, no Amazonas. As fêmeas Aedes aegypti e Aedes albopictus são atraídas até pequenos baldes com uma substância capaz de matar somente as larvas. Assim, ao pousar nos criadouros para botar seus ovos, elas depositam também o inseticida que exterminará as futuras larvas. “O método permite atuar nos pequenos criadouros, liberando assim os agentes de endemias para atuar nos macro criadouros, maximizando os esforços dos recursos humanos empregados no combate às arboviroses”, explicou. Sérgio defende ainda a conjugação desse método com a disseminação da bactéria Wolbachia como uma estratégia de sucesso.

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