Com novo tratamento, Brasil ultrapassa 90% de taxa de cura para hepatite C

Com novo tratamento, Brasil ultrapassa 90% de taxa de cura para hepatite C

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Com novo tratamento, Brasil ultrapassa 90% de taxa de cura para hepatite C

A hepatite C, causada pelo
vírus HCV, é uma doença silenciosa que costuma apresentar sintomas apenas em
sua forma avançada ” quando o fígado do paciente já se encontra comprometido.
Foi o que aconteceu com o engenheiro e professor Manoel Messias Neris, 65 anos,
que mora em Santos (SP). Em 1992, ele resolveu doar sangue e, pelos exames de
testagem, descobriu que tinha a doença. De pronto, Neris procurou o Sistema
Único de Saúde (SUS) em busca de orientações, pois, à época, sabia-se pouco
sobre hepatite C. 

“A
princípio, eu não tinha lido nada sobre o assunto, então achei que o tratamento
para cura era simples. Naquela época, a internet não tinha a capacidade que tem
hoje. Até descobrir o drama da situação, demorou a cair a ficha. O conhecimento
era limitado”, rememorou. Ele suspeita ter sido infectado em uma consulta com
dentista, por meio de aparelhos não esterilizados.

Recomendado
pelo médico que o avaliou, Neris realizou uma bateria de exames para verificar
seu quadro hepático e em seguida iniciou o tratamento com os medicamentos ribavirina e interferon, esse último
sendo custeado pelo SUS. A primeira tentativa, que durou cerca de um ano, não
foi bem-sucedida. O engenheiro sofreu com os fortes efeitos colaterais dos
medicamentos: apresentou uma queda considerável de plaquetas e leucócitos,
tendo sua imunidade diminuída e ficando exposto à contração de novas doenças.
“Foi quando comecei o segundo tratamento, compeginterferon associado à ribavirina.
Eu ficava prostrado. Sentia uma espécie de fraqueza, perdi totalmente o apetite
e emagreci muito”, conta Neris. Com essa nova tentativa, em 1998, os testes
deram negativo ” mas não por muito tempo.

Três
meses depois, a doença voltou. Como o paciente já havia tentado todos os
tratamentos disponíveis e, mesmo assim, continuava a apresentar infecção por
hepatite C, ele decidiu se abster de assistência médica. Em 2012, quando houve
sinalização de distribuição de novos medicamentos, Neris voltou ao hospital e
reiniciou a terapêutica, desta vez com a inclusão do boceprevir.
Com um ano de tratamento, veio a boa notícia: os exames para a doença estavam
negativos. Poucos meses depois, uma nova surpresa: o vírus HCV voltou a se
manifestar.

Em
outubro de 2015, o Brasil incorporou três novos medicamentos para o tratamento
da hepatite C: daclatasvir,simeprevir e sofosbuvir. As drogas
elevam para mais de 90% a taxa de cura da doença, que com o antigo tratamento (Interferon e outros) se limitava a 60%. Além
disso, elas apresentam efeitos colaterais mínimos e proporcionam um tempo menor
de tratamento (de 12 a 24 semanas). Antes, esse período chegava a um ano, como
aconteceu com Neris. Com o novo protocolo, ele iniciou novamente o tratamento
com daclatasvir e sofosbuvir,
associado à ribavirina. Em três meses,
estava curado.

“Desde
fevereiro estou negativo. Senti efeitos colaterais mínimos. Antes, com os
outros remédios, não conseguia nem andar direito. Agora, eu voltei a correr na
praia e consegui até fazer a Corrida São Silvestre. Devagar, mas consegui”,
alegrou-se. Com a nova geração de medicamentos mais eficazes no combate à
doença, Neris está confiante que não voltará a ter más notícias quanto à sua
saúde. “Na minha opinião, o SUS é o melhor sistema de saúde do mundo. O
tratamento para hepatite C não é barato e, com o custeio, salvou minha vida. O
Brasil deve servir de exemplo para o mundo nesse quesito”, finalizou.

Para
Joaquín Molina, Representante da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização
Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, o novo protocolo adotado pelo sistema de
saúde do país dá segurança para uma vida melhor às pessoas que vivem com a
doença. “Desde a incorporação dos novos medicamentos, o Brasil tem mostrado
resultados bastante otimistas em relação às taxas de cura de hepatite C. A
iniciativa do país pode servir de exemplo para outros Estados que também
enfrentam os desafios impostos pela doença. A OPAS/OMS tem trabalhado junto ao
país para tornar esse cenário ainda mais positivo”, disse.

O
Brasil distribui desde 2011 testes rápidos para a detecção da enfermidade. A
cada ano, cerca de 3 mil mortes são associadas à hepatite C. Atualmente, não
existe vacina para doença.

Histórico
Nas décadas de 80 e 90, a exposição ao vírus acontecia majoritariamente com
transfusão de sangue, hemodiálise, uso de drogas injetáveis, compartilhamento
de objetos de uso pessoal, sexo desprotegido e na confecção de tatuagens. Até
1993, não existia ainda no Brasil testes de diagnóstico da doença, bem como,
até recentemente, tratamento eficaz para combatê-la.

O
Ministério da Saúde brasileiro estima que 1,4 milhão de brasileiros tenham
hepatite C. Porém, apenas 120 mil casos da doença foram notificados nos últimos
13 anos ” as regiões Sul e Sudeste somam 86% das ocorrências. Leandro Sereno,
consultor da OPAS/OMS na área de Doenças Transmissíveis e Análise de Situação
de Saúde, lembra que a incidência da doença é maior em pessoas com mais de 45
anos. “Até o início da década de 90, não era feita no Brasil a testagem do
sangue doado pela população. Como o vírus pode demorar de 20 a 30 anos para
manifestar sintomas (quando manifesta), quem à época recebeu transfusão de
sangue ou compartilhou seringas pode desenvolver a doença tardiamente. Esse é
um dos fatores que dificulta a procura dos pacientes aos serviços de saúde, e,
consequentemente o diagnóstico e o tratamento adequados”, ponderou.

Atualmente,
com intermediação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da
Saúde (OPAS/OMS), países membros do Mercosul negociam a compra conjunta de um
medicamento de nova geração para tratar a hepatite C. A quantidade será
definida pelos governos em concordância da demanda de cada país. A aquisição
dos medicamentos será feita pelo Fundo Estratégico da OPAS/OMS. Equipes
técnicas da instituição também apoiam o Ministério da Saúde no desenvolvimento
de novos protocolos clínicos.

Transmissão
e sintomas

O vírus da hepatite C é mais comumente transmitido por meio de transfusão de
sangue não testado, compartilhamentos de seringas (como no caso do uso de
drogas injetáveis) e reutilização ou esterilização não adequada de equipamentos
médicos. A doença, mais raramente, também pode ser transmitida verticalmente
(de mãe infectada para o bebê) e pela prática de sexo sem preservativo. De
acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), após a infecção inicial, 80%
das pessoas não apresentam nenhum sinal da doença. As demais podem desenvolver
hepatite aguda, caracterizada por sintomas como febre, fadiga, perde de
apetite, náuseas, vômitos, dor abdominal, urina escura, fezes de cor cinza, dor
nas articulações e icterícia (amarelamento da pele e do branco dos olhos). De
cada 100 pessoas que tem contato com o vírus HCV, 80 evoluirão para infecção
crônica.

O
diagnóstico precoce pode evitar uma série de problemas decorrentes da infeção e
também prevenir a transmissão do vírus. A OMS recomenda testes de hepatite C
regulares para população de risco, que inclui: pessoas que utilizam drogas,
pessoas privadas de liberdade e quem tem tatuagens ou piercings, entre outros.

Plano
de ação

A OMS lançou em outubro de 2015 um plano de ação para prevenção e controle de
hepatites virais e convocou seus Estados-Membros a priorizarem a hepatite C
como uma questão de saúde pública, promovendo e integrando respostas
abrangentes e estabelecendo metas específicas para enfrentar os desafios que
essa doença infecciosa apresenta. “O documento estabelece metas, estratégias e
objetivos para o controle das hepatites, com foco nos tipos A, B e C. O Brasil
participou ativamente da elaboração do Plano conosco”, afirmou Sereno.

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